Um dia destes, entre as interminaveis horas do trabalho forçado para acabar o concurso, assisti, às portas do Castel Sant'angelo, ao por-do-sol, a uma liçao de Historia ao vivo, digna de transmissao televisiva...
O tema era aquele, o da cidadania, que como o brilhante orador precisou vezes sem conta, è um conceito grego, mas espalhado por mao de Roma e força Latina.
Porque os Latinos eram uns tipos tramados. Viviam ali na margem sul do Tevere, donos das altezas entre colinas, andavam sempre às cabeçadas com os Etruscos, do outro lado do rio, e roubavam as mulheres aos probres Sabinos, que aquelas Latinas muito cedo perceberam que os maridos estavam mais interessados em brincar à guerra dos mundos com os amigos transteverianos, e assentaram os panos longe de Roma.
Ora assim é bem mais facil perceber como um homem possa degolar o irmao por ter ultrapassado uma linha imaginaria, talvez tivesse trocado o prazer de chapinhar na agua ensanguentada e fazer sibilar a espada, para se ir enroscar com a sua torrida latina recolhida nos verdes prados mais a este, mas isto sao tudo consideraçoes levianas....
O ponto é que da ferocidade animalesca destes homens nao resta duvida, e 400 anos depois tinham difundido a sua lingua e a sua força por um territorio cada vez maior..
E a lingua é o factor chave seja da ideia de cidadania seja da identidade.
O grego era ainda a lingua do refinamento literario, mas o latim era a palavra de instruçao belica.
As tribos e os povos que falavam de outro modo, eram os barbaros, porque falavam de um modo ininteligivel. Barbaro é um conceito de separaçao linguistica, e obviamente cultural, mas tem uma origem isolada. Barbaro era todo o mundo fora de Roma.
E os barbaros, passo a passo, enquanto Roma aumentava de territorio e de homens, foram aprendendo a lingua, porque progressivamente o exercito aumentava, e a lingua comandava-os na cidadania.
Ser cidadao, àquele tempo, era ter direitos e previlegios sobre um territorio bem delimitado mas sempre em expansao, era estar dentro e ser de dentro de Roma, ser Romano. Era um direito à nascença de uns, uma separaçao de raiz cultural de tantos.
A Europa de hoje lutarà ainda com esta pertença, mas existe um episodio marcante na historia, o edito de Caracalla (212 da era de cristo), que decreta que a todos os que habitavam dentro do territorio imperial fosse concedido o titulo de cidadao. Os barbaros afastavam-se, politicamente, cada vez mais do centro da civilidade. E a identidade do cidadao começava a estratificar-se e a perder o centro originario.
Que a raiz cultural do sul nos prove que da cultura helenistica que à força da espada e da lingua latina foi sendo espalhada restam sinais obvios e inequivocos, é constataçao inequivoca, basta lembrar o culto da imagem do corpo, considerado um marco exclusivo dos nossos tempos.
Que a raiz cultural do norte "barbaro", sempre "de fora" da civilidade me cheguem ainda hoje sinais contraditorios, é outra.
Porque descobrir que um conceito como "shadenfreude" nao exista nas linguas latinas, é algo que me deixa deveras confuso.
A civilidade serà cinica porque se esconde de si propria e a barbaridade porque denuncia os seus proprios podres?...