
credits: Carlos Lobão 2007
Sabado, 10 da manhã.
Acordo com o rufar de tambores e duas cornetas que lá fora agitam o ar com as muito usadas melodias natalicias.
Abro a janela. São cinco pais natais numa improvisada fanfarra-despertador. Ao fundo da rua, em vez do habitual caos automobilistico há uma enorme feira. Estou em Roma, mas é como se estivesse na provinciana Meda.
Preparo um café na minha Bialetti tamanho individual, e automaticamente relembro o conhecido discuro de Tyler Durden a bordo de um aviao... que ele faz a si próprio.
Enquanto espero pelo resultado da experiência fisico-quimica da água-calor-café, acendo um cigarro, e repenso os últimos acontecimentos. O Scirocco, esse vento quente africano que esporadicamente empurra o calor do Sahara para esta peninsula maldita, parece ter trazido com ele uma loucura ancestral dos povos africanos, na raiz de todos os tempos e mitos...
No Office foram anunciadas as novas remodelações, mas não da mobília (excepção feita a uma das casas-de-banho) mas de pessoal.
Sendo o recem-chegado, permaneço atónito com a noticia dos despedimentos de dois dos click-and-draggers mais antigos no escritório, enquanto olho nos olhos o patrão, que, apertando a sua mão nos meus ombros, me põe ao corrente do mesmo.
"Logo agora que o pessoal estava a criar uma dinamica de trabalho!", penso.
Talvez o problema fosse mesmo esse, o "ajuntamento" criativo foi subitamente sancionado pela mesma mão castradora que te dá o pão, antes que se rebelasse.
Eu vou-me entretendo com o projecto que tenho em mãos, a ampliação de um hotel, que é meu de raiz, e agarro a minha sanidade laboral (ou escondo-a) nas visitas imaginarias que faço ao lugar-a-ser, enquanto projecto (sim, é um verbo) nas três dimensões.
"Uma vez convencido o cliente, a responsabilidade é tua daqui até ao estaleiro", são as palavras do arquitecto sénior que me segue despreocupadamente, que andam ainda às cabeçadas dentro da minha própria cabeça, à espera de um catálogo onde cair.
Mas a sanidade, tal como a amizade, é apenas um estado temporário da alma...
O café está pronto. Sirvo-o e acendo mais um cigarro.
"Mas a sanidade, tal como a amizade, é apenas um estado temporário da alma..."
Talvez. Talvez o seja deveras. Em estocadas. Umas curtas e outras longas, que te ludibriam com uma sensação de infinitude. Mas tudo muda, tudo acaba, tudo morre.
E se as arvores o fazem quase sempre de pé, porque não os homens também?