quarta-feira, 19 de novembro de 2008

...queres morangos em janeiro?

Os tempos agora são outros e o clima (e os passaros) parecem ter perdido o GPS, mas ainda assim os ciclos naturais repetem-se todos os anos, aunciando-se principalmente com a renovada oferta gastronomica. (ou das regras do estomago)

O vinho novo está na dorna ( ou já na mesa ), a castanha começou a ser calibrada, as avelãs e amendoas foram já partidas, os doces e as compotas brilham nos respectivos frascos, memorias cristalinas dos frutos inchados pelo ultimo periodo de sol…

…e nos fumeiros jaz a carne retalhada com as miudezas e o sangue envoltas pelo seu interior…

…e as chuvas e o frio lá fora ajudam a que dentro se acenda a fogueira, e volta-nos á memória esse aconchego primordial do fogo, do lar.

Mas estes são os ritmos da terra, que pouco se fazem sentir na cidade-envolvida-em-pelicula-protectora, são rituais muito diluidos na monotonia da oferta permanente de produtos-da-terra dos seus supermercados globais,…

(…queres morangos em janeiro?)

Não será à toa que os celtas marcavam este periodo no calendario como a transição para um ano novo, e não deixa de ser curioso como hoje esta coisa do dia-das-bruxas tenha um significado tão desviado, com uma expressão tão acentuada (popular ? cultural?), certo, na cultura anglo-saxonica, mas recentemente adoptada neste pais á beira mar plantado…

Este último fim de semana voltei às terras altas para o aniversário do meu pai.

Como é “a época”, no sabado de manha fomos até à autoproclamada capital da castanha (bem, não se trata apenas de uma coincidencia espacial, alias, os ouriços esmagados pelo caminho bem o atestaram) tratar das provisões. O meu pai tinha ali um “contacto”, um tal de Sr. António, cuja fama de vendedor de produtos de qualidade lhe tinha sido emprestada na amena cavaqueira de café e que fez estrada pelos cruzamentos nas conversas da pesca, ou da caça, essa forma de conhecimento longe de qualquer guia turistico gastronomico, porque a informação tambem ela é uma coisa volatil, tal como as palavras….

Acontece que o Sr. Antonio, homem forte e de feições rijas, com o cabelo totalmente grisalho, impecavelmente penteado para tras, gere o seu negocio de venda de produtos da terra directamente a partir do seu estabelecimento, uma barbearia-cápsula-do-tempo, res-do-chao, cadeiroes de ferro forjado incrustrados pela insistencia prolongada da gravidade num soalho maciço de madeira longamente fustigada pelo tempo e pela passagem dos homens (sim, quem espreite por aquela porta de madeira maciça hoje, como quem entrou nos ultimos 50 anos, portas abertas directamente para a rua, parecer-lhe-á assistir a um espectaculo continuamente em cena…

“Vem comprar castanhas? Muito bem! Este ano foi mau para a castanha, há menos para vender…” - exclama, enquanto trata de aparar, com mestria na navalha, os cabelos da nuca do fregues sentado no cadeirao. “Espere ai um pouco, é só um instantinho”

Enquanto esperavamos pelo fim do corte, chegam dois “fornecedores” prontos para vender castanhas junto do que agora mais claramente parecia um entreposto comercial, acusando o proposito da localização da barbearia na praça, e acusando o negocio-fachada que sempre dará para fazer un trocos entre as horas mortas do verdadeiro negocio, a venda dos produtos trazidos directamente pela mão que semeia e colhe da terra.

“Sr. Antonio, trago ali castanha da boa, a quanto é que está a comprar?”

“Ah, isso depende, meu amigo! É preciso vê-la. É só um instantinho, já lá vamos ve-la!” - responde-lhe.

“Está mesmo aqui à porta!” - rebate

“Eu tambem lhe trago aqui uns 40 quilos, já selecionados! É toda da boa! E grande!” -devolve-lhe o segundo fornecedor.

Acabado o corte, passou-se aos negocios. Foi só preciso sair porta fora. Ao primeiro, depois de uma breve inspecção do lote, afastando as castanhas dentro do saco, depois levantando um punhado ao sol, e rapidamente eliminando produto “bichado”, despudoradamente deitado ao chao, o Sr. Antonio ofereceu “eurimeio” (ao quilo, entenda-se). As castanhas eram pequenas e não tinham sido escolhidas!

Ao segundo, a história era diferente. As castanhas eram enormes, cuidadosamente divididas em dois grandes sacos de rede vermelha, que passaram no mesmo tipo de inspecção sem que nenhum daqueles campiões acabasse prostrado no granito frio do pavimento exterior. “Esta é da boa! Dou-lhe mais cinquenta centimos.”

Impecavél, penso eu. Uma incursão por uma versão simplificada da actividade bolseira, directamente na raiz! E tudo á frente do freguês. Quer dizer, nós, que estavamos ali para comprar.

“Ora venham lá daí!” e dirigiu-se para um portão mais acima, onde fomos encontrar toda a espécie de castanha, envolvida por um cheiro inebriante a alcool, que ali tambem se tinha acabado de fazer a aguardente. Acabamos por comprar castanha da melhor qualidade, em tudo semelhante à que momentos antes tinha sido “leiloada”, a doisemeiooquilo, o que por matemática directa lhe deu pelo menos uma margem de lucro de 25%, isto sem contar com o trabalho manual de selecção. Claro está que isto tudo sem cortes fiscais. Mas para quem ache que o “estado”, que somos todos nós, sai prejudicado nestas transações paralelas com dinheiro vivo, desengane-se, porque a história ainda vai a meio.

O giro de compra da castanha na sua capital não estaria completo sem ver o outro lado do negócio, aquele industrializado. Por ali, e nao vou passar a publicidade (pelo menos por enquanto), existe uma cooperativa que comprando directamente a uma miriade de produtores, seleciona a castanha conforme o calibre, limpa, ensaca, rotula e prepara para distribuição.

Ora e não há nada como ir à fonte! Entramos porta a dentro pela fábrica (não estava ninguem no tipico-contentor-convertido-em-secretaria) (vem-me à memória: “…o Lobão vê uma porta aberta, e entra”… deve ser de família!…), andamos pelo meio das maquinas de calibragem, de ensaque,…, até que alguem identificou os dois “espioes industriais”, que, apenas apresentados como compradores-na-fonte, nos conduziu às camaras de refrigeração onde os lotes estavam prontos para distribuição.

Ali, no meio de um frio maior que o lá de fora, fomos informados que estavam “a vender para quase todas as grandes superficies nacionais”, mas que por enquanto não tinham volume para exportação. O “produto” era sem duvida alguma selecionado, estupidamente limpo, cuidadosamente dividido em sacos de um e cinco quilos, de calibre diferenciado. Os preços para a castanha maior, em tudo semelhante à que já tinhamos comprado eram de cincuauquilo ( impressionante como os valores redondos ditos a correr perdem importancia…), a nós, que estavamos ali para comprar, fazia-nos a 4. Minutos depois, acompanhados até ao tipico-contentor-convertido-em-secretaria, foi-nos passada a factura, que acrescia à compra os 5% de IVA. Ora, em matemática muito simplista, pagámos 21 euros: 1 para o Estado, 10 ? para o bolso do Produtor, 10 para o bolso do Insdustrial.

Sendo seguramente comprovado que a margem de lucro (desconto incluido- imagine-se) é superior aos dois euros o quilo (100% - basta lembrar os preços do primeiro vendedor na barbearia), e pese embora o dispendio no investimento de tão grande “fábrica”, pergunto-me: mas afinal o interesse para o consumidor final na industrialização dos processos não é pagar menos pela acesso à qualidade controlada?

E a mim que me interessa mais: pagar 25 centimos por quilo ao estado e o dobro pelo mesmo produto, ou “ficar a dever” 10 centimos por quilo ao estado-que-somos-todos-nós, e pagar com dinheiro vivo (ou será fantasma?) directamente ao produtor, pela mesma qualidade no produto?


?



De qualquer modo, o estio prolongado do Porto parece finalmente ter abandonado estas paragens, resta esperar que o verão de S. Martinho seja certeiro no calendario, mas se não o for, é sempre bem vindo, ainda que tardio. E mesmo que sem a jeropiga…

… nada melhor que a reuniao para degustar os produtos que à força (e por esta altura, tambem à bala) são arrancados da abundante “pança” da terra-mãe.

Certeiro certeiro é a degustação de castanhas (alguem recusou chamar-lhe magusto, por nao existirem nem fumo nem brasas…) marcada para este sabado 1 de Novembro, aqui por casa … com competição aberta entre as duas especies.

Saberemos qual das castanhas vence o prémio da mais saborosa?

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