sábado, 11 de agosto de 2007

Cronicas da vida provisoria - parte V Toscana. L'entroterra


às portas de Pitigliano. Burgo medieval


Toscana. Entroterra



Aqueles dois dias em Roma, que passamos "de passagem", constituiram uma especie de ritual , um tempo de amortização das coisas e do seu pesar, a preparação de um funeral de uma morte anunciada (neste caso pela chuva estiva do meio de agosto, e um frio a lembrar aquele de Setembro na Meda), a dos dias plenos de sol e muito tempo livre para o aproveitar.
Simultaneamente desolado pela inevitavel constatação que Setembro é o mês dos humores dificeis, uma cuspidela na cara e no espirito para relembrar que a Terra de novo volta a ser reclamada aos seus filhos naturais, o vento e a chuva; o vinho fervilha de novo nas pipas, e o Homem recolhe e retira-se à sua fortaleza esteril de cimento e asfalto, a cidade dentro dos muros, fora do "imundus"... , isolado à força dos seus deuses pagãos, e controlado sobre o olhar altivo da norma moral, que do alto da cupula de S.Pietro se anuncia a quase todas os montes, a quase todas as ruas.... e a conciliaçao entre os dois mundos continua por chegar...

Para tras ficaram os dias na Toscana, que começamos no Monte Argentario, uma "ilha" que, à força do acumular de detritos trazidos pelo rio Albegna, foi-se criando um prolongamento que acabou por junta-la ao continente, criando uma lagoa salgada entre os dois (onde "flutua" Orbetello, uma especie de Veneza muito modesta sem canais) fechada a norte pelo tombolo della Gianella e a sul por aquele da Feniglia, pedaço de paraiso sobre a terra, praia extensa a lembrar os mais vastos areais algarvios, de agua limpida e areia finissima... Nao sera preciso dizer que já os Romanos se faziam aproveitar destas preciosas terras, falta descobrir o porque de Argentario, mas isso sao outras cronicas, esperemos que de novo partilhadas com o velhote Sr. Giorgio, simpatiquissima companhia naqueles dias. ( A ver se me oferecem trabalho como reporter de viagem...)

E se nao bastasse a Feniglia, estava por descobrir Saturnia, inacreditaveis termas em cascata, ao ar livre, de papo-para-o-ar, submerso, o silencio abafado da agua tepida que escoa de poça em poça, e no horizonte vertical o espetaculo del tramonto, mil cores progressivamente subtituidas pelas estrelas sobre o fundo negro ( já agora, diz-se Magalhães, não magelano, e nem está lá em cima, nem nós fora dela), e uma serie de incandescentes rasgos que cruzam o ceu, alguem chamou de S.Lorenzo, projecteis ciclicos por esta altura do ano...
Assim se sonha a vida no campo! E como este campo toscano se parece, em certas passagens, às altas terras do Douro, e a subida até a serra!

Queijos, fumados e vinhos! divina combinaçao. Pizza al taglio, remendo da fome. Pao sempre seco, a menos que seja de azeite, venha antes uma bella focaccia, ou entao vai sempre a pizza in bianco. Pasta alla carbonara, pasta. E o café, o café!! No que toca à habilidade gastronomica, portugueses e italianos estão definitivamente no mesmo degrau.

Voltar a Siena, reviver Piazza del Campo, banhar-se no sol e deixar-se escoar de novo para o entroterra, perder-se pelo verde serpenteante e ouvir o sussuro das uvas que amadurecem...

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