(se há tipos prácticos são os italianos - que sobre isso não haja a mais pequena duvida-, mas no que toca ao campeonato do verdadeiro desenrascanço, cuja medalha de ouro teimam obstinadamente em oferecer-nos, o campeão em titulo chama-se tambem Itália)
Do ponto de vista cultural, sem dúvida que o peso da história é aqui evidentemente sublinhado no curto espaço entre gerações, ou pelo menos será acertado dizer que esse dito fosso entre gerações encontra-se encurtado, num país desde sempre obrigado a conviver e reviver (com) as velhas rotinas, fomentando um respeito inevitavel para com a história, com um forte sentido de comunidade, por reflexo obrigatório a um territorio humano saturado de alertas antigos concorrentes numa “dolce vita“ marcada a ferro e fogo na ideia comum do Belpaese...
E quando digo comunidade não quero com isso sublinhar qualquer ideia politica moderna, futurista, ou vermelha ou de esquerda, antes um conceito político de raiz (lembre-se PolisTikón), um conceito inerente à administração da polis, ao mundo de Remo encerrado dentro do pomério, onde inevitavelmente havia tarefas a ser divididas. A titulo de exemplo lembro que não há muitos anos no nosso país, e porventura ainda hoje num Alentejo pequeno e rural com traços de comunidade ainda profundos, a fonte e o forno representam um esforço mútuo no que diz respeito ao cumprimento das necessidades básicas da vida quotidiana.
Pois bem, precisamente a fonte e o forno são sem sinal de dúvida dois simbolos desta vida antiga em comunidade, que fizeram esta viagem de mais de dois milénios e, sem o menor espanto, fazem ainda hoje parte da rotina diária em Roma. E o mesmo se pode dizer das termas de que falei outro dia, as de Saturnia...
Há em Itália, e é inquestionavelmente um exemplo, coisas essencias do foro público que estão à disposição da inteira comunidade.
O reverso da medalha vejo-o eu em tudo ao que o detalhe do espaço publico diz respeito. Mas já lá vamos.
O nosso, o espaço público, que pouco uso tem, (excepção feita àquele relativo ao uso do carro, mas esse será uma outra coisa, de outro cariz, pelo menos, ainda assim temos a civilidade centro-europeia de conduzir, dentro da cidade, entre as marcações rodoviárias –sim, isto é uma critica à vossa condução, ò bárbaros romanos), a que um arquitecto Siciliano quis chamar os “Jardins Secos”,(a meu ver, expressão mais que acertada, basta pensar nas ultimas intervenções na Praça da Batalha, Aliados, Poveiros), espécie de museus-das-coisas–que-não-são-o-que-as-coisas-podiam-ser-mas-continuamos-orgulhosos-de-ter-estes-espaços-em-potência, um museu onde se mostra que houve (há) um tempo e um lugar de uso colectivo, mas que a ninguém parece importar, pelo menos pouco patente entre o comportamente nativo mas bastante menos sobre aquele importado.
Certo, entre praças-negativo-da-malha, esplanadas-de-recanto-de-passeio-protegidas-entre-plantas-envasadas, bancos-de-jardim-verde-de-separador-central-numa-via-larga, variadissimas sao as apropriações engendradas que muitas vezes nascem espontaneas como cogomelos.... lá fora, ou se cá dentro, sempre rodeadas de um recalcado valor turistico ou sentimental por um passado boémio do tempo dos grandes poetas.
Em Portugal, onde pouco ou nada disto acontece (assim acontecia, hoje ficou-nos um certo olhar), parece ser obrigatória uma espécie de via instituicional, há que requerer a papelada e preencher o impresso correcto, pedir autorização a um dito El-Rey-de-uma-bela-merda e esperar que um Arquitecto-Chuchão interprete o alinhamento sideral de Venus com nao sei que coisa, que a Sociedade-Construtora-Chapa-Quatro-vulgo-Administração-Encapuçada aguarde o momento em que Estado-que-supostamente-somos-todos-nós apanhe o sabão e zás-tráz, a obra nasce, Deus não quis coisa nenhuma, e o Homem afinal tinha sonhado, mas era com a Katherine Hepburn....
...se no País-das-bananas querem ver frutos, talvez seja melhor começar por plantar bananeiras nas praças.
Não que este processo seja diferente noutras paragens, pelo menos no Sul mediterranico, mas como sempre, há uma linha invisivel que divide, e no que toca a aparencias, Espanha e Itália tem muito mais a oferecer ao flaneur à deriva.
O lado perverso da coisa é que como tudo o que se expõe a um uso continuado acaba por ganhar um desgaste profundo, então a estratégia (pelo menos a italiana, quer-me parecer; nuestros hermanos situam-se num patamar intercalar) parece ser não dispender demasiados esforços no detalhe com o qual as coisas são construidas, ao ponto de me questionar se realmente chegam a ser desenhadas em projecto (aquele real, como nos ensinaram a nós, escrutinado pela escala do pormenor, do detalhe minimal, onde só falta dizer às formigas por onde caminhar....), ou se são um mero exercicio de conhecimentos por quem assenta as mãos directamente na obra material. Só assim, e voltando ao tema, se entende como possa imperar, sempre e de cada vez, a lei do desenrascanço, mas um desenrascanço que olha ao lado mais practico das coisas, sem se demorar no detalhe, que investe claramente contra a legislação mais genérica, e de forma chocante o senso comum, pelo menos aquele português. Quero com isto dizer que fico sempre chocado com a displicencia com que são tratados os acabamentos nas ruas, passeios, praças, jardins, esplanadas, ao ponto de tudo ser uma colecção de remendos e contra-remendos, enfim, suporte horizontal qual manta de retalhos velha e gasta, mil vezes rota e remendada, mortalha negligenciada, afastada do centro da atenção pela riqueza da cidade vertical, aquela que se ergue do chão imundo, pararela ao plano do olhar. Talvez a lição seja mesmo essa, a de que temos de deixar de olhar tanto para o chão.
E é este contraste, entre o uso do espaço e a preparação do mesmo, que me deixa deveras consternado. Comparativamente ao desalinhado e desajeitado espaço público em Itália, efervescente em vida, aquele português parece, de uma forma exageradamente singular, um frágil sapato de cristal, de alta costura, mas sem bela formosa para o calçar....
Sem comentários:
Enviar um comentário